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Hippies

O impacto que mudou a Terra

O “Flower Power” continua a gerar efeitos e a disrupção sonhada nos anos 1960 se tornou realidade e se mantém como tendência de futuro graças aos Hippies 2.0

 

Questão de física: as colisões sempre geram energia. As grandes podem mudar o mundo, encerrar eras inteiras. O estudo dos dinossauros prova isso. Não importa a força de uma criatura, uma colisão suficientemente grande pode mudar tudo e até aniquilar completamente um ecossistema. Mas existem as pequenas colisões, que mudam apenas o que está em torno delas. E há, ainda, as fricções, colisões menores e constantes, que também geram calor, desgaste e barulho. Pois bem, quando se pensa no movimento Hippie dos anos 60 há quem diga que foi uma fricção, um modismo colorido e que está superado. Há muitos que acreditam que foi uma colisão entre o establishment e uma nova abordagem em relação à vida e que moldou uma geração. Mas há os que veem como o movimento Hippie como um daqueles meteoritos que mudam o ambiente de todo o planeta, que alteram as pessoas de forma subliminar e tão profunda que acabam se tornando o DNA de muitas das atitudes que vemos hoje nas pessoas. Essa mudança profunda certamente direciona as preferências do consumidor e, portanto, determina as tendências no mundo dos negócios e da macroeconomia.

 

O meteorito que provocou toda essa mudança foi o termo “Beat Generation”. Cunhado em1948 pelo autor Jack Kerouac, essa definição sobre o estilo de vida de uma geração acabou se espalhando pela literatura norte-americana na virada da década de 1950 pelos textos de John Clellon Holmes e Allen Grinsberg. Nos seus romances eles falavam de comportamentos que colidiam espetacularmente com a estrutura de pensamento da classe média norte-americana, que se caracterizava por ser moralista, conformista e racista. Esses jovens escritores buscaram inspiração no submundo, nos excluídos, nos boêmios, artistas e músicos – gente que levava um estilo de vida considerado perigoso, pecaminoso e decadente pelas boas famílias de classe média, que estavam criando seus filhos para serem profissionais corporativos, dormirem cedo e acordarem com as galinhas. Os jovens da geração “beat” abraçaram as drogas e resolveram “to live fast and die young”.  Eles eram a raiz do inconformismo provocado pela consciência de o destino preparado para eles por seus pais, professores e patrões era tedioso demais para ser encarado de cara limpa. A fuga eram a rebeldia e a busca por adrenalina – a mais lícita das drogas. Essa inquietude foi retratado no filme Juventude Transviada, estrelado por James Dean. O ator, que era um símbolo sexual ambíguo, vivia na vida real vários dos excessos que interpretava no cinema. Acabou morrendo em um acidente de carro aos 27 anos e, com isso, se tornou um ícone desta forma extrema de viver. Essa geração era para a América o que os Impressionistas tinham sido em Paris na virada no século 20.

 

Só que, tal qual o impacto de um meteoro na crosta terrestre, as ideais dos beatniks foram gerando consequências em ondas e mexendo com a cabeça dos jovens ao longo dos anos. Levou quase 20 anos, mas o conceito da contracultura se estabeleceu nas mentes dos jovens. As universidades na Califórnia, especialmente as mais próximas de San Francisco como Berkeley e Stanford, se tornaram espaços em que essas ideias foram se amplificando até se tornarem um movimento ainda mais radical e amplo: o movimento Hippie que literalmente floresceu em 1967 no chamado “Summer of Love”. Naquele verão quase 100 mil pessoas foram à região de San Francisco – cidade onde nasceu o jeans, quase um século antes, em 1873 e que sempre foi conhecida por ser inovadora e por ser um lugar de excessos desde os tempos da Corrida do Ouro do século 19. Só que o século 20, o ouro de San Francisco viria em outra forma. O que estava sendo garimpado no final dos anos 1960 e começo dos anos 1970 eram ideais que rompiam com os padrões – era a época do Flower Power.

 

Naquele momento (1967) era ali (Bay Area) que tudo estava acontecendo. Houve protestos contra o Vietnã no campus de Berkeley. Também foi naquele verão que o movimento revolucionário afro-americano de Oakland, os Panteras Negras, marchou na capital do estado, portando armas, sem esconder isso de ninguém. Bandas como Grateful Dead, Jefferson Airplane e Big Brother e a Holding Company, liderada por Janis Joplin, se apresentaram no palco em locais como o Avalon e o Fillmore, sua psicodelia encharcada de ácido expressando as preocupações da contracultura – que iam do surrealismo ao sexo livre.

 

Naquele verão, os bailarinos Rudolf Nureyev e Margot Fonteyn (representantes máximos da cultura clássica amada pelo “establishment”) foram presos porque estavam em uma festa no bairro de Haight-Ashbury (o núcleo do epicentro do movimento hippie) que foi invadida pela polícia. No local, os homens da lei encontraram cigarros de maconha. Na hora da prisão, Nureyev caprichou no deboche e fez um “jeté” para entrar no carro da polícia. Os bailarinos acabaram sendo soltos porque não havia como provar que eles tivessem fumado a droga.

 

A efervescência naquela época era enorme. Tudo era feito para deixar claro que aquela geração repudiava os valores da sociedade convencional com seu racismo, guerra e repressão. Era melhor construir realidades alternativas e isso significava fazer o avesso do que as classes médias faziam – em todos os campos. Na moda, volumes diferentes, cores fortes, estampas berrantes, influência oriental, cabelos e barbas longas, repúdio à depilação. Na alimentação, comida não industrializada, natural, macrobiótica, vegetariana. Foi a época do surgimento do nudismo, da vida em comunidades, do amor livre. A luta era por igualdade, preservação da natureza e contra a guerra e o militarismo. Foi as época em que muitos descobriram as religiões orientais, passaram a buscar gurus e ganharam uma nova dimensão de espiritualidade. Várias seitas surgiram nessa época. A música foi um fator importante na mudança de comportamento. O álbum de 1967 dos Beatles, Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, foi um chamado para a contracultura que atingiu tanto a América quanto a Europa. Duas semanas depois do seu lançamento em 1º de junho, foi tocado nos alto-falantes do Monterey Pop, possivelmente o primeiro festival de música – não por acaso, realizado na cidade litorânea do norte da Califórnia, pertinho de San Francisco.

 

Todo esse caldo da contracultura penetrou na mente dos acadêmicos e formou os valores de uma geração nascida nos anos 1950, os Baby Boomers, que mudaram a face do mundo dos negócios e a forma de viver de todo mundo.  Ninguém pode negar que a Microsoft mudou a nossa sociedade. Ela foi fundada em 4 de abril de 1975 por Bill Gates, nascido em Seattle em 1955 e Paul Allen, que era dois anos mais velho. Outra empresa que mudou hábitos, gerou novas estéticas e revolucionou a vida das pessoas foi a Apple, fundada em 1º de abril de 1976 por Steve Jobs, nascido em 1955 em San Francisco, e Steve Wozniak, que é de 1950. Além de terem literalmente crescido em um tempo e lugar em que as influências hippies eram fortíssimas, esses criadores frequentaram universidades que até hoje cultivam uma visão crítica em relação à sociedade.

 

Microsoft e Apple nasceram em garagens e foram fundadas por jovens cheios de potencial que preferiram largar os seus cursos universitários para empreender – atitudes consideradas altamente rebeldes nos anos 1970. Naquela época, o script para um jovem era conquistar um diploma, arranjar um emprego em uma multinacional, vestir um terno, fazer uma hipoteca, poupar para mandar os filhos para a universidade e se aposentar. Esses filhos do movimento hippie não fizeram nada disso. Eles criaram uma série de produtos e serviços subversivos e desenvolveram culturas corporativas que desafiavam os modelos industriais clássicos. Inovação constante, estética, formas diferenciadas de encarar o trabalho, a proposta de uma nova relação com o consumidor, o empoderamento do indivíduo por meio do uso da tecnologia – tudo isso veio com essa geração alimentada pelas ideias dos hippies.

 

Os parâmetros criados por essas empresas serviram de exemplo para empresas com formatos e atitudes ainda mais distantes dos referenciais clássicos da administração e da economia que haviam sido estabelecidos no final do século 19, na Segunda Revolução Industrial. A Apple faz computadores e outros aparelhos, a Microsoft vendia seus programas em mídias físicas. As empresas que vieram depois, não entregam nada físico e nem por isso seus serviços e atuação são menos poderosos. Pelo contrário! Google, Facebook, WhatsApp e Waze nunca entregaram algo físico e estão entre as empresas e marcas mais valorizadas do mundo porque atuam de forma clara para tornar a vida das pessoas melhor. Elas efetivamente empoderam as pessoas, quebram barreiras, aproximam os indivíduos, permitem que as ideias e a comunicação fluam e trazer o sentido de comunidade – algo tão importante para os hippies, que deploravam o individualismo – para o centro das suas operações.

 

Plataformas como Apple Store, AirBnB e Uber elevaram a cooperação e o sentido de compartilhamento a um novo patamar. Por isso, antes mesmo de dar lucro, o Uber teve um IPO tão badalado e esperado pelos mercados. O WhastApp foi comprado pelo Facebook por US$ 19 bilhões sem ter dado lucro. Era uma empresa com apenas 55 funcionários que colocou em cheque as grandes operadoras de telefonia – é subversivo e disruptivo. Tudo isso indica que estamos vivendo uma terceira fase do movimento hippie.

 

Na verdade, boa parte das empresas e marcas que são mais valorizadas pelas pessoas ao redor do mundo realizam as aspirações hippies no sentido de serem baseadas nos valores de comunidade, compartilhamento, inclusão e acessibilidade. Hoje em dia, mesmo as pessoas barbeadas e depiladas, que usam roupas cinzentas e estão mais preocupadas com a conta do cartão de crédito do que com o aquecimento global (que equivale ao fim do mundo) estão vivendo imersas na cultura hippie – sem se tocar disso!

 

Cada vez mais pessoas que estão ativas no mercado hoje adotam um comportamento ligado à inovação constante e com isso desafiam os limites e comportamentos atribuídos ás suas gerações de origem. Esses são os Perennials – as pessoas que evoluem o tempo todo e que estabelecem para a sua vida uma atitude de abertura irrestrita para o novo.

 

Existe todo um estilo de vida baseada no consumo consciente e na busca pelo equilíbrio. Um reflexo disso está na disseminação nos últimos 20 anos da Yoga como exercício físico e terapia para alma. Pelo mundo todo, milhões praticam a antiga arte da Yoga e da meditação para reduzir o stress e evoluir espiritualmente. Outra linha de pensamento oriental que vem conquistando cada vez mais gente é a Medicina Tradicional Chinesa que, muito antes da penicilina e dos equipamentos de raios-X e tomografia, chegava a diagnósticos e tratamentos baseada apenas na observação dos paciente e na forma como sua energia fluía. Há 5 mil anos, os curandeiros chineses já pregavam que a saúde é resultado da conexão entre mente, corpo, espírito e meio ambiente.

 

Há muita coisa nova acontecendo no nosso mundo. A busca por autoconhecimento inaugurada pelos hippies, vem afetando tudo e até está gerando uma nova forma de encarar o trabalho. Os profissionais querem mais que um salário, eles querem fazer um trabalho que tenha um significado para eles e para o mundo. Elas querem ser pessoas melhores e atingir o equilíbrio entre “high tech e high touch”. Essa atitude vem sendo chamada de Hippie 2.0 e está mexendo com forma como os negócios vem sendo feitos e a maneira pela qual as empresas se estruturam.

 

Uma pesquisa realizada pela Gallup em 142 países avaliou o engajamento dos trabalhadores e o resultado é que apenas 13% se sente engajado. No entanto, o The Energy Project descobriu que as pessoas têm três vezes mais chances de permanecer no trabalho, são duas vezes mais felizes e são mais motivados quando o trabalho é significativo. Mas a grande onda do mundo do trabalho é trocar um emprego pelo empreendedorismo. Cada vez mais gente – de todas as idades – está trocando a realidade corporativa para buscar um propósito, um sonho e isso as leva abrir as suas próprias empresas de garagem. Aliás, vale notar que as startups ultra bem sucedidas são chamadas de unicórnios – animal mitológico que tem tudo a ver com as visões oníricas dos hippies. Algumas das iniciativas empresariais mais bem-sucedidas da atualidade são respostas aos sonhos do Flower Power. Por exemplo, a fabricante de automóveis Tesla, que surgiu para atender que pagaria qualquer preço para usar energia limpa. A Beyond Meat, empresa que tem como proposta oferecer proteína de origem vegetal com a estética de comida tradicional mas que não impacta o ambiente. Com sua linha de produtos formada por hambúrgueres, salsichas e linguiças feitas de legumes, leguminosas e hortaliças a empresa conquistou os vegetarianos porque respeitou a cultura gastronômica mainstream. Com isso, a empresa atingiu US$ 5 bilhões em Market Cap em 2019 – em um país de carnívoros ávidos como são os Estados Unidos.

 

 

Mas há outros comportamentos e atitudes que reforçam a existência de uma nova forma de ser hippie: cada vez mais gente prefere transporte público e Uber a possuir um carro – algo que é um símbolo da Segunda Revolução Industrial. Na verdade, as pessoas querem possuir cada vez menos coisas físicas. A cultura vem sempre on-demand, por streaming, via Netflix, Spotfy e Kindle. A mídia de massa está sendo confrontada por blog e pelo YouTube. Nunca houve tanta oferta de comida orgânica e vegana quanto nos dias atuais. Hoje não é só o sexo que é livre, a sexualidade também passou a ser livre. As pessoas podem tomar suas decisões em relação a gênero. As famílias tem formatos os mais variados possíveis e a religião se tornou uma decisão pessoal, espiritual de cada um. As pessoas querem Liberdade, mas exigem responsabilidade de quem pretende lhes oferecer um produto ou serviço. Até a relação com as drogas e a psicodelia mudou radicalmente. Atualmente, em vários locais do mundo – Holanda, Canadá, Califórnia, Colorado, Uruguai – a maconha é legalizada e vendida de forma organizada. Nureyev ia adorar!

 

Mais de 50 anos depois do Summer of Love, vemos que os hippies venceram e já dá para afirmar que seu impacto na Terra foi capaz de alterar tudo na vida do planeta. Ainda existem alguns dinossauros que estão tentando resistir, mas o novo mundo criado pelos hippies  — tanto os originais quanto os de hoje – é inexorável. Paz e Amor!

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