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A força da escrita

Vá a um supermercado e observe. As pessoas que têm uma lista de compras previamente preparada costumam ter uma atitude mais assertiva diante do que veem nas prateleiras, percorrem os corredores rapidamente, com segurança e exibem uma aura equilíbrio bem característica. Algo que está fora da lista até pode atrair sua atenção, mas o tempo para decidir se esse item fica onde estava ou vai para o carrinho é infinitamente menor do que o tempo que uma pessoa sem uma lista leva para se decidir sobre o que precisa, o que quer ou que é atraente o suficiente para entrar no carrinho mesmo sem estar na lista.

Mas é na fila do caixa, na hora de pagar a conta, que a diferença entre ter ou não uma lista fica evidente. Os que escreveram o que queriam demonstram segurança de terem atingido seus objetivos simplesmente porque tinham clareza sobre o queriam ali. Já os sem-lista e sem foco têm aquela expressão confusa e angustiada de quem não sabe se cumpriu plenamente sua missão ali. Geralmente só percebem que tomaram decisões ruins tarde demais.

Tanto no supermercado quanto na vida, não ter clareza sobre as suas necessidades e desejos gera uma enorme dissipação da sua energia e uma inaceitável perda de tempo – além que não trazer satisfação plena.

A lista de supermercado é a metáfora perfeita para a diferença que a arte do journaling pode fazer na sua vida. Quando você coloca no papel o que quer, fica mais fácil se mover no mundo, alcançar seus objetivos e evitar desperdício de energia ou arrependimentos. Isso não significa que ter seus pensamentos escritos vai privá-lo de perceber novidades ou incorporá-las na sua vida, mas certamente vai lhe dar mais clareza sobre que tipo de impacto aquela novidade pode ter no cenário geral.

 

Escrever é o que faz a diferença

Nada pode ser mais reconfortante que uma folha em branco. Ali, qualquer sentimento, ideia, plano ou teoria encontra o seu espaço. Uma folha em branco é como colo de mãe, sempre pronto para provar que somos a pessoa mais importante do mundo.

Colocar as coisas por escrito dá para elas uma consistência única. Até os sonhos mais psicodélicos ganham uma dimensão artística e poética quando são transformados em texto. Turbilhões de emoções desconexas conseguem encontrar um formato quando transformados em palavras. Não há confusão que resista ao choque da linguagem. As palavras concretizam, direcionam e posicionam a alma humana.

Basta buscar nos livros de História para descobrir que alguns dos humanos mais fantásticos que viveram neste planeta tinham em comum o hábito de escrever diariamente. Aí fica a pergunta: a grandeza acompanha quem escreve ou quem escreve está destinado à grandeza?

A resposta é: os dois. Os maiores realizadores têm clareza sobre o que querem realizar e geralmente essa clareza vem do hábito de escrever diariamente. De colocarem no papel o que sonham, desejam, planejam ou criam. A lista de aficionados por colocar ideias no papel é cheia de gênios: Leonardo da Vinci, Isaac Newton, Abraham Lincoln, Marcus Aurelius, Charles Darwin, Thomas Edison, Winston Churchill, Benjamin Franklin, Ernest Hemingway, George Bernard Shaw e Andy Warhol são alguns dos nomes. Isso sem falar nos heróis bíblicos como David, Moisés, os autores dos Salmos e os evangelistas do Novo Testamento – que transformaram o que testemunharam em textos que se tornaram sagrados.

Por dever, os grandes descobridores mantiveram diários de bordo: Cristovão Colombo, Pedro Álvares Cabral, Fernando de Magalhães e todos os navegadores que ajudaram a humanidade a descobrir o seu próprio planeta tinham em comum a obrigação de escrever um diário de bordo. Essa obrigatoriedade de relatar todos os dias o que acontece no navio tem uma razão prática indiscutível: um barco (seja de que tamanho for) só tem em torno de si céu e mar. Sem um registro do que acontece a cada dia, a viagem vira um grande borrão na memória. Além disso, a sensação de mesmice é tão insuportável que chega a tirar o juízo de quem tem por obrigação manter a mente clara. Por isso, o capitão tem o dever de relatar o que acontece a cada dia e identificar os progressos que teve na viagem.

Na vida, somos os capitães do nosso barco, senhores do nosso destino. Mas sem ter uma intenção clara, uma carta náutica que nos guia, estamos perdidos no espaço e quando não temos um diário de bordo, que registra nossos pensamentos, sentimentos e progressos, estamos à deriva no tempo.

 

Preservação da alma

Nada é mais perecível que uma ideia, que um pensamento. Escrever uma ideia é preservá-la. É dar a ela a sua primeira forma possível. Ela pode ficar ali, presa naquela folha de papel ou pode se tornar algo capaz de mudar o mundo. Mas atenção: sem esse primeiro estágio de existência, as ideias morrem. É como se elas fossem óvulos que, não sendo fecundados, deixam de se tornar seres complexos e maravilhosos. Para uma ideia, o milagre da vida é ser transformada em palavras. Quando os historiadores analisam os diários de Leonardo da Vinci ou de Charles Darwin eles percebem o processo evolutivo das ideias de forma clara graças ao hábito destes grandes homens de registrarem suas inspirações, projetos e até suas dúvidas.

Antes mesmo de estudar esse assunto e me aprofundar na arte do journaling — expressão em inglês que descreve o ato que registrar pensamentos diariamente – eu já registrava o que se passava na minha cabeça ou coração. A minha vida inteira sempre tive um caderno ao meu lado que servia como uma extensão do meu cérebro. Colocar as minhas ideias em uma folha de papel era algo automático para mim. Eu ainda não havia decupado as razões que me levavam a isso, mas eu sentia uma necessidade de colocar tudo para fora. Com o tempo descobri que eu não era o único que se sentia assim. Muitos criativos, escritores, inventores e empreendedores famosos têm o hábito de escrever. Escrever o ajuda a estabelecer prioridades, clarificar os pensamentos e a atingir seus mais importantes objetivos – além de depurar suas emoções em relação a tudo o que se está vivendo, inclusive o trabalho.

 

Benefícios para o corpo, a alma e os negócios

O palestrante canadense Robin Sharma, especialista em liderança e motivação, é um fã incondicional do hábito de escrever e em um de seus vídeos ele lista sete razões que explicam porque considera o journaling um hábito tão poderoso: 1. A escrita ajuda a organizar o pensamento e a trazer clareza; 2. Fomenta e esperança; 3. Permite reviver as experiências: 4. Ajudar a reconhecer as razões que temos para sermos gratos; 5. Ajuda a processar as adversidades e as negativas; 6. Ajuda a perceber e a fixar os aprendizados; 7. Permite registrar sua vida e o que há de importante nela.

Além de clarear a mente, escrever ajuda aliviar o coração (no sentido figurado), o que pode trazer benefícios claros para a saúde física, beneficiando diversos sistemas do organismo, como o cardiovascular. Ou seja, escrever sobre suas ideias e sentimentos traz benefícios evidentes para sua saúde física. E pode também ajudar a reduzir o stress provocado por traumas psicológicos.

Especialista em expressive writing — a escrita expressiva é uma variante do hábito de journaling mais voltada aos relatos sobre traumas emocionais — o Dr. James W. Pennebaker, responsável pelo departamento de psicologia da Universidade do Texas, em Austin, descreveu melhora física em pacientes que sofriam de asma, apnéia do sono, enxaquecas, artrite reumatoide, HIV e câncer. Os cientistas perceberam uma relação entre a escrita sobre emoções ajuda as células do tipo Linfócito T que melhoram a função cerebral e o humor.

A psicoterapeuta Maud Purcell, expert em journaling, explica: “Escrever acessa o hemisfério esquerdo do cérebro, que é analítico e racional. Enquanto o lado esquerdo está ocupado, o seu hemisfério direto está livre para fazer o que faz melhor: criar, intuir e sentir. Desta forma, escrever remove os bloqueios mentais e permite que usemos mais do nosso poder cerebral para melhor entender nós mesmos e mundo ao nosso redor”. Portanto, escrever nos faz pensar e sentir melhor – ao mesmo tempo!

Escrever um objetivo costuma ser o primeiro passo para realiza-lo. O poder do journaling está entre os superpoderes de empreendedores da atualidade. Patrick Grove, empreendedor australiano no ramo da internet e de mídia, co-fundador e CEO da Catcha Group, com fortuna estimada em 465 milhões de dólares. Um dos seus produtos mais famosos é o Iflix, que funciona como um Netflix dos países em desenvolvimento e que distribiu filmes produzidos localmente. Toda manhã Grove faz 30 minutos de journaling logo depois de acordar. Nesse tempo, ele escreve sobre os problemas da sua vida e, em seguida, nas soluções que enxerga para solucionar cada um deles.

Outro empreendedor que reconhece publicamente os benefícios da escrita diária é Yanik Silver, fundador da maverick1000, uma rede global de top empreendedores que querem fazer a diferença no mundo. Ele utiliza tanto o journaling que escreveu um livro sobre o assunto chamado Cosmic Journal

 

A magia da escrita

Além disso, escrever cria uma impressão na sua mente. Especialistas afirmam que pessoas que escrevem suas metas têm mais chance de atingi-las do que aquelas que não o fazem. Quando você escreve está criando um compromisso, estão criando uma imagem gráfica para o seu desejo e isso cria uma tatuagem na sua mente. Como um mantra isso vai ecoando na sua cabeça até que se torna realidade. O nadador brasileiro César Cielo conta para quem quiser ouvir que sempre escrevia o tempo que desejava fazer em uma competição em diversos papeis e os colocava em locais em que ele veria sempre – inclusive pregado no teto do seu quarto, para que a marca fosse a última coisa a ser vista antes de dormir e a primeira ao acordar. Deu certo. Sua carreira lhe rendeu 33 medalhas em competições internacionais, incluindo recorde e o ouro olímpico nos 50m nos jogos de Pequim, em 2008. .

Todos esses relatos repetem uma descoberta que fiz em minha própria vida: escrever todos os dias é mais do que um hábito desejável, é um hábito fundamental, capaz de alterar para melhor como você trabalha, come, gasta, se exercita, se diverte, se comunica – enfim, como você vive.

Compreender a influência de fatos aleatórios nas nossas vidas é outro presente que o journaling nos proporciona. Quem chamou a minha atenção para esse benefício foi Regis Mackena. Autor, palestrante, guru de marketing das maiores empresas do Silicon Valley, ele é, também, uma das pessoas mais influentes na minha vida. Uma vez ele me falou que ele escrevia todos os dias em seu diário porque muitas coisas que acontecem na vida que não têm explicação imediata, mas com o tempo você vai acabar descobrindo a resposta. Portanto, escrever nos ajuda a ligar os pontos e ver que tudo na sua vida está conectado. Nada é por acaso no roteiro das nossas vidas. Visualizar a sincronicidade atuando nas nossas vidas é algo tão fascinante quanto poderoso.

Há uma certa magia no ato de registrar ideias e sentimentos. Escrever é o primeiro passo para que algo se torne real. Essa percepção combina com o que diz o best-seller global O Segredo em relação à influência do que você pensa na construção do seu futuro. Se a escrita ajuda a clarear suas ideias, você passa a enviar mensagens mais claras para o universo. Escrever diariamente é, na minha experiência, uma ferramenta muito poderosa para atrair o que você deseja e, também, para se tornar uma pessoa melhor e mais feliz.

 

Praticando o journaling

Comece a considerar journaling como um esporte, que precisa ser praticado com constância. Dentro do universo do journaling existem várias modalidades a ser exploradas. Pode ser uma lista de afazeres que depois é comentada, pode ser uma lista mais ligada às emoções, pode ser uma coleção de ideias para o trabalho ou para família, pode ser um diário de viagem (excelente para quem viaja muito a trabalho) e pode ser um diário ligado a um hobbir (que vinho foi tomado naquele dia). Cada um vai descobrir a que mais faz sentido para si.

Muita gente empaca na ideia de ter que escrever. Estranhamente esquecem que o seu principal compromisso é com elas mesmas e acabam perdendo a oportunidade de consolidar seus objetivos em forma de texto por acharem que não são boas redatoras. Ninguém precisa ter a eloquência Gabriel Garcia Marquez para se beneficiar do journaling. Basta escrever. Dá para começar pequeno, com o investimento de cinco a dez minutos por dia.

Lembra da lista de supermercado? Então, a experiência de escrever um diário pode começar exatamente assim: com uma lista definindo o que você precisa e o que deseja. Pode misturar coisas pessoais e profissionais, a lista é sua e você tem todo o direito de fazê-la como desejar. Em um segundo momento você separa naquela lista o que é urgente e o que é importante – eis uma forma de priorizar que traz bastante clareza. Uma vez que essa etapa esteja pronta, dá para ir um pouco mais fundo: tente se perguntar o porquê das necessidades, desejos, urgências e prioridades. A paz que vem destas definições ajuda a organizar suas energias.

Muita gente considera que a mais fácil é listar as razões pelas quais se é grato. Gratidão é uma das coisas mais importantes da vida. E o sentimento de ser grato é um ótimo antidoto para o medo e para ansiedade.

Arranje um caderno e escreva a mão, com letra cursiva. Crie um compromisso com espaço separado na sua agenda. Comece escrevendo de 5 a 10 minutos por dia até criar o hábito. Depois, estabeleça seu tempo e rotina. Normalmente eu faço duas vezes ao dia. Pela manhã, dedico 20 minutos às minhas intenções para o dia e para a minha vida. No final do dia quando eu escrevo sobre o que aprendi naquele dia. O ideal é fazer isso todos os dias por um mês. Vai virar um hábito capaz de mudar sua vida.

Alguns exercícios para estimular o journaling:

  1. Escreva diariamente suas 10 razões para ser grato.
  2. Já parou para pensar quais são seus super poderes? Como você os utiliza?
  3. Quais sao as suas cicatrizes da vida? Elas ainda te machucam? Por que?
  4. Quais são suas maiores vitórias da vida? Como você as conquistou?
  5. Escreva uma carta para o seu ideal no futuro
  6. Escreva sobre seus modelos operacionais e porque estão funcionando ou não.
  7. Qual o melhor conselho do seu coração para você?
  8. Escreva sobre sua meditação diária.
  9. Escreva sobre seus objetivos de vida e como vai atingi-los.
  10. Escreva sobre ideias.
  11. Escreva sobre algo que aprendeu.
  12. Liste o que precisa fazer hoje para construir sua felicidade.

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