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Tudo que é sólido desmancha no ar

“Tudo que é sólido desmancha no ar” Zygmunt Bauman

Momentos de crise relativizam toda a nossa realidade. A única certeza que temos é que estamos em um momento de transição. Por isso, precisamos entender por que fazemos o que fazemos para, assim, criar um desenho desse novo mundo que está logo ali, depois da curva. Deu frio na barriga? Tudo bem, é normal. Estamos evaporando. Mas isso pode ser melhor do que você imagina.

Momentos de transição e a liberdade

Em seu livro Tempos Líquidos, o sociólogo Zygmunt Bauman traça como uma das características principais da modernidade a insegurança, pois tudo muda o tempo todo. Esse fenômeno, na verdade, é resultante de uma das marcas da transição para a pós-modernidade: a da vontade da liberdade e da distinção. Não por acaso, Bauman nomeia essa transição como Modernidade Líquida. Com tanta liberdade, nos movimentamos livremente por entre lugares, estados e sensações. Como a água, que sempre encontra caminhos para escorrer. Contudo, a mudança é tão rápida que não entendemos para onde estamos indo. Essa força é tão forte que ela não controla e nem espera que a controlemos. E nem tente, pois será em vão.

Com a pandemia do Coronavírus, a nossa liberdade encontrou barreiras. A fluidez ou liquefação é uma metáfora para expressar o dinamismo do processo de transição da modernidade para a pós-modernidade. Ou seja, ela é uma etapa. Se os tempos líquidos têm data de término, qual será o próximo capítulo?

Ora, vamos seguir a linha de raciocínio da própria alquimia. Sólido – líquido – ar. Como os elementos, nossa vida e nossa sociedade também são cíclicas. Afinal, água parada gera lodo.

O que é modernidade líquida?

Antes de falarmos para onde vamos, precisamos saber onde estamos. É como diz o estudioso Roberto Schwarz: “para saber que horas são, é preciso saber que horas eram”. A entrada na modernidade foi marcada pela “fábrica fordista”. Apesar dos conflitos internos, esse sistema era sinônimo de segurança para o indivíduo. Cada um sabia onde estaria amanhã, daqui um ano e daqui dez anos. Provavelmente no mesmo trabalho, estudando as mesmas coisas, com o mesmo círculo social e com a mesma família. Uma estrutura sólida, então, era presente.

Entretanto, essa estrutura sólida começou a ser lançado no cadinho por diferentes razões culturais, sociais, tecnológicas e políticas – que não são nosso foco nesse momento. A modernidade, então, derreteu essas estruturas e começou um tempo fluído. Ou seja: os elos que entrelaçam as escolhas individuais e coletivas tornaram-se facilmente modificáveis.

Bauman aponta cinco pontos de partida para essa reflexão a respeito dos desafios que todo indivíduo na era presente (ou passada?) enfrenta. Contudo, vou falar de três que importam para nossa reflexão.

  • A primeira delas baseia-se no fato de que a passagem para esse estado líquido levou as organizações sociais a obsolescência. Dessa forma, enfraqueceram-se as organizações sociais que até então limitavam as escolhas individuais e levavam a padrões de comportamento ditos “aceitáveis”. Ficamos sem parâmetros para condução dos projetos de vida individual.
  • Outro ponto é a modificação dos laços afetivos. Antes, teciam-se em uma rede de segurança que levavam a um investimento de tempo e esforço que criavam ligações duradouras. Os interesses individuais imediatos eram colocados de lado para construir um laço, digamos, sólido. Entretanto, Bauman adverte que tais laços se tornaram cada vez mais frágeis e reconhecidamente temporários.
  • Além disso, Bauman já relatou algo que, com a COVID-19, estamos vivenciando na carne. A modernidade líquida baseia-se no colapso do pensamento, do planejamento e das ações a longo prazo. Isso tudo causou um enfraquecimento das estruturas sociais e individuais. Vimos, então, histórias políticas e individuais numa série de episódios de curta duração, que nada têm relação um com o outro.

Assim, na modernidade líquida não temos certeza de nada: sobre com quem vamos nos relacionar a até qual trabalho iremos exercer daqui 5 anos. Dessa forma, o conceito que permeia todo o pensamento de Bauman é o da insegurança existencial. E o que estamos vivendo agora é o ápice dela. Afinal, podemos sair na rua singelamente para ir ao mercado, comprar um inocente pão e, 15 dias depois, nos depararmos com alguma fatalidade.

Essa insegurança avassaladora que nos assolou efervesceu nossa realidade. Diz Bauman: “(…) a nova ordem, como no detrimento dos primeiros sólidos, necessita driblar qualquer resistência que impeça o seu avanço”. O coronavírus foi o ponto de resistência. O que era líquido não sobreviveu e evaporou.

We are dust in the wind

A modernidade líquida era apenas uma passagem, onde o individualismo e o não-planejamento era, digamos, confortável. As estruturas sociais e individuais com a pandemia se enfraqueceram. Contudo, depois de meses de reflexão forçada em quarentenas verticais, as pessoas perceberam que provavelmente a maneira pela qual estávamos vivendo não seja sustentável, nem para o mundo nem para nós mesmos. Acabamos obrigados nos últimos tempos a expandir nossos horizontes, pois as correntezas eram fortes. Contudo, por causa dessa força, não conseguíamos aproveitar o caminho e aprender com ele.

A modernidade ar está depois da curva

A modernidade ar, que vejo como a próxima fase, é o momento da criatividade, da comunhão de uns e da introspecção de outros. Afinal, para voltarmos a circular livremente, precisamos saber onde ir, com quem e como. Quantas pessoas estão descobrindo que, como diria Vinícius, é “impossível ser feliz sozinho”? Quantas pessoas não estão re-planejando o futuro e querendo colocar seus planos pessoais – e não apenas profissionais – em dia? O amanhã parece tão incerto que o hoje é o que importa.

Por isso, como o ar, devemos buscar o novo. O ar busca a combustão para criação. O fogo, por si só, é a morte de algo para o nascimento do calor, da luz.

O nascimento de uma nova faceta interior já é um grande ponto de diferença da modernidade ar. A líquida levava nossa subjetividade como algo não tão importante. Deixávamos até então nossa criatividade de lado. Não produzíamos, apenas copiávamos, como salienta Walter Benjamin em Obra De Arte Na Era De Sua Reprodutibilidade Técnica.

Entretanto, após esse período de isolamento, tivemos que trabalhar a nossa subjetividade. Sem saber o dia de amanhã, precisávamos entender a nossa razão no mundo.

Vasculhe-te para não se perder na ventania que vem aí

O que eu realmente gosto? Por que faço o que faço? Como faço o que eu faço? Com quem quero estar? O que eu quero produzir? São questões que afloraram nesse período. E um dos caminhos encontrados é o da espiritualidade, na noção original da palavra. Afinal, quando começamos a nos vasculhar, paradoxos surgem e outras dúvidas emergem de lugares que a vida profana não fornece respostas. A viagem para tais respostas, então, é interna. O que vai surgir dessa nova descoberta do novo “eu” social e individual numa era pós-corona?

Ainda é cedo para previsões certeiras. Mas faço-lhes um convite: ao invés de tufões, que tal pensarmos em sermos brisas leves do mar? 

 

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