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A mente e o corpo: a balança não-dual

Como você enxerga seu corpo? Não estou aqui perguntando se você se acha magra(o), gorda(o), bonito(a), feio(a)… Mas sim como você lida com ele? Você é seu corpo? Quem está guiando seu corpo? Quem está batendo o seu coração enquanto “outro alguém” está lendo esse texto? Quem está pensando tudo isso?
Considerar o corpo como um mero acúmulo de vísceras e funções é a raiz de diversos problemas modernos. Assim como deixar a mente controlar todos as nossas ações. Temos sempre que tomar um remédio para dopar, anestesiar, algo que nós mesmos criamos nessa nossa máquina de altíssima tecnologia chamada corpo.
Ao invés de pensar no corpo como um obstáculo ou a mente como uma trapaceira do nosso “Eu maior”, encontrar-se na posição não-dual pode ser a saída para uma vida mais serena. Onde o respirar a cada acontecimento torna-se mais simples, cada passo menos dolorido e o corpo mais cheio de energia, de prana. Afinal, é graças a esse templo sagrado que você está vivendo a graça dessa experiência – e, venhamos, ela não é de todo ruim. Lembre-se de quantos amores, risadas, momentos bons, você já não viveu até aqui?
Eu não estou sonhando ou imaginando uma Utopia. Essa é a base de um dos conhecimentos mais antigos da humanidade: o Yoga, particularmente o Tantra Yoga.
O corpo é o seu templo
Esqueça os padrões que a sociedade impõe a todos nós – homens e mulheres. Esqueça os modelos, capas de revista, outdoors, atrizes, atores… Pergunte-se a si mesmo(a), como é a minha morada? Ora, se cuidamos do nosso lar com tanto cuidado e carinho, por que às vezes acabamos deixando tudo isso em segundo plano? Será que é por parecer tão inalcançável esse corpo “saudável” e “bonito”?
Vamos virar essa página com a ajuda do Tantra Yoga. Para o Tantra, o corpo é o templo divino, pois é ele que permite nossas investigações, experiências e reflexões acontecerem. Elas, juntas, tornam possíveis a nossa libertação dos nós que a sociedade, o dia a dia e nós mesmos criamos.
Em um dos textos sagrados do Tantra Yoga, Viśvasāra Tantra, é sublinhado: “O nascimento humano é a pedra fundamental no caminho da libertação. Por isso, é raro e cheio de mérito quem chega a ele”. Ora, se o nascimento nesse plano físico é uma raridade e uma “sorte”, devemos abrir nosso peito para conseguirmos investigar e interpretar o mundo e, principalmente, as nossas camadas mais profundas.
Afinal, você já deve ter percebido que é muito mais fácil analisar alguém do que a nós mesmos.
E a mente, como fica?
Agora que temos noção da grande chance que temos ao receber esse corpo de presente para que nossa essência habite, é hora de olharmos para a mente. Esse cavalo que de relance parece indomável, ao conhecê-lo melhor, você poderá não apenas dominá-lo, mas também cavalgar com ele por belos campos da vida. Isso significa: ter o controle das suas ações e, consequentemente, do seu corpo, da sua pisada.
Afinal, a mente sob controle torna-se uma ferramenta. No Yoga esse estado é chamado de Vashikara, nominado assim quando a mente se encontra em controle. Com isso, podemos usá-la como instrumento para explorar componentes mais sutis da mente. Um deles são os Sanskaras, impressões profundas que as nossas ações geram em nossos corpos (físico e psicológico).
Por exemplo: se somos pessoas que costumamos engolir muitos “sapos”, não digerimos de uma forma correta aquilo que nos incomoda, essa nossa ação de não falar, não se expressar, vai acabar criando uma fissura em nosso corpo físico e psicológico. A rachadura pode vir na tireoide, estômago, intestino, ansiedade, depressão… E o resto da história você já sabe.
Mas o que é a mente, afinal?
Podemos definir a mente como a soma das habilidades cognitivas que permitem a consciência, percepção, imaginação, julgamento e reconhecimento. É ela que racionaliza os acontecimentos da nossa vida, que pede praticidade, que pede que tenhamos medo e resistência frente aos sussurros da nossa intuição. Até hoje a ciência não sabe exatamente de onde ela vem. O cérebro acaba servindo apenas como um aparelho reprodutor da mente – como o rádio que toca as frequências do rádio.
Nos Yoga Sutras de Patanjali, datado de mais de 4.000 anos atrás, é descrito que o objetivo final da prática do Yoga é aquietar as flutuações da mente. E quando domamos esse cavalo, evitamos que ele quebre tudo o que vê pela frente. É sabermos dar aquela pisada de maneira sutil. Com o corpo e a mente leves.
Reconhecer-se como não-dual
Acalmar a mente e o corpo, como se estivéssemos colocando um pouco de atenção em cada ponta de uma balança, é o caminho não-dual. Quando há um corpo, um templo, limpo, com fortes pilares, estaremos preparados para receber as mais belas flores. Saber onde colhê-las só é possível se o seu cavalo consegue andar elegantemente pelos campos floridos, sem esmagar a beleza por onde passa.
Ao dissolver esses limites rígidos que nós mesmos traçamos ao nosso redor, podemos nos sentir mais vivos. As experiências começam a fazer cada vez mais sentido, mesmo você não se identificando como sendo A experiência. E sim como o observador, onde você só é responsável pelas suas ações. Afinal, as reações e as consequências dependerão de fatores externos a você. Contudo, para saber onde a flecha está sendo mirada precisamos de um braço firme para segurá-la com precisão, uma respiração leve e tranquila e uma mente livre de distrações. O tiro será cada vez mais certeiro para você mesmo(a) saber cada passo da sua caminhada.
Mas isso é assunto para outra hora…

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