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Você é um “homem/mulher de negócios”?

 

Recentemente publiquei nas minhas redes sociais uma pequena alegoria sobre “O homem dos negócios”, que aparece no clássico O Pequeno Príncipe, de Saint-Exúpery. Sabemos que tal livro, apesar de voltado para o público infantil, nos traz muitos ensinamentos que podemos levar para nosso dia a dia – até mesmo para o nosso trabalho. Tal passagem do homem dos negócios, que vamos discutir um pouco nesse post, nos faz avaliarmos os motivos pelos quais estamos trabalhando e porquê fazemos o que fazemos do jeito que fazemos. Afinal, o que é trabalho para você? Trabalhamos por trabalhar? Construímos “posses” por construir?

“Para que contar as estrelas se o importante é a maravilha de observá-las?”

Em sua viagem pelas galáxias, o Pequeno Príncipe chega em um mundo um tanto quanto peculiar em relação a todos os outros. Lá estava o homem dos negócios. Sentado em uma mesa e muito, muito, ocupado a contar as estrelas. Ele está tão absorto na sua “tarefa”, que parece ser muito importante, que quase não nota a presença do Pequeno Príncipe. Quando finalmente nota, as únicas coisas que consegue falar baseiam-se na certeza de que “Sou um sujeito sério”.

Leia esse pequeno trecho e convido-te a refletir se, por um acaso, se assemelha com a vida corporativa que tínhamos (temos?) até então:

“Há cinqüenta e quatro anos que habito este planeta e só fui incomodado três vezes.

A primeira vez foi há vinte e dois anos, por um besouro caído não sei de onde. Fazia um barulho terrível, e cometi quatro erros na soma. A segunda foi há onze anos, por uma crise de reumatismo. Falta de exercício. Não tenho tempo para passeio. Sou um sujeito sério. A terceira… é esta! Eu dizia, portanto, quinhentos e um milhões…

– Milhões de quê?

O homem de negócios compreendeu que não havia esperança de paz:

– Milhões dessas coisinhas que se vêem às vezes no céu.

– Moscas?

– Não, não. Essas coisinhas que brilham.

– Abelhas?

– Também não. Essas coisinhas douradas que fazem sonhar os ociosos. Eu cá sou um sujeito sério. Não tenho tempo para divagações.

Ah estrelas?

– Isso mesmo. Estrelas.”

Ora, o “sujeito sério” nem mesmo sabia o que estava contando. Não sabia o porquê estava trabalhando. O que podemos chamar hoje em dia de falta de propósito. Em um vocabulário atual podemos fazer uma analogia com uma tabela de Excel. Por vezes, estamos tão absortos em encontrar um número específico que escapa pelas nossas mãos o que está por trás de tudo isso. Claro, número são importantes. Mas não apenas eles que importam. O que há além delas?

Por ter o nariz metido em seus cálculos, o empresário definitivamente se afastou da realidade. Seu trabalho não faz mais sentido. Seu universo se limita a uma planilha Excel …

A grande mercantilização de tudo

A última parte desse encontro – que teve que ser breve pois o “sujeito sério” estava muito ocupado – muito se assemelha também aos dias de hoje: a mercantilização de tudo.. Como já discutimos nos últimos artigos, passamos por um período de extremos. A escassez material ocasionada pelas Guerras criou um ambiente pós-guerra onde desde as nossas relações íntimas até às articulações sociais basearam-se nessa sensação de… escassez. Era preciso, mais do que nunca, acumular. E, para acumular, precisamos transformar tudo em “coisas”. (Afinal, conseguimos vender amor? Gratidão? Alegria?) Mas não vamos fazer uma digressão muito grande. Continuemos no Pequeno (Grande) Príncipe.

O Homem de Negócios mostra que na matéria de contar, tudo pode virar produto. Até mesmo as estrelas. Todas essas aquisições possibilitadas hoje no mundo liberal parecem incompreensíveis para o Pequeno Príncipe. O empresário, ao contrário, fez disso seu trabalho e o sentido de sua vida. Sua vida é contar as estrelas e, aparentemente, não há nenhuma razão e nada mais a se fazer. O que ele conta e reconta em sua planilha, na realidade, não podem ser pegas na mão, apenas admiradas. E, mesmo assim, o Homem de Negócios continua as contando. Ele até garante ao Pequeno Príncipe que elas pertencem a ele, porque ele é o primeiro a se apropriar delas.

“– E que fazes tu dessas estrelas?

– Que faço delas?

– Sim.

– Nada. Eu as possuo.

– Tu possuis as estrelas?

– Sim.

– Mas eu já vi um rei que …

– Os reis não possuem. Eles “reinam” sobre. É muito diferente

– E de que te serve possuir as estrelas?

– Serve-me para ser rico

– E para que te serve ser rico?

– Para comprar outras estrelas, se alguém achar.

Esse aí, disse o principezinho para si mesmo, raciocina um pouco como o bêbado – No entanto, fez ainda algumas perguntas.

Como pode a gente possuir as estrelas?

De quem são elas? respondeu, ameaçador, o homem de negócios

– Eu não sei. De ninguém.

– Logo são minhas, porque pensei primeiro.

– Basta isso?

Sem dúvida. Quando achas um diamante que não é de ninguém, ele é teu. Quando achas uma ilha que não é de ninguém, ela é tua. Quando tens uma idéia primeiro, tu a fazes registrar: ela é tua. E quanto a mim, eu possuo as estrelas, pois ninguém antes de mim teve a idéia de as possuir.

Isso é verdade, disse o principezinho. E que fazes tu com elas?

Eu as administro. Eu as conto e reconto, disse o homem de negócios. É difícil. Mas eu sou um homem sério!”

O quão sério estamos?

Muito mais do que dar grandes lições, esse post é um convite a refletirmos o porquê fazemos o que fazemos. Qual o propósito. Estamos contando por contar? O que é trabalhar, para nós? Estamos querendo nos apropriar das estrelas enquanto esquecemos de admirá-las? Já olhou para a janela hoje? Isso, sim, pode fazer a diferença no trabalho – muito mais do que contar, contar e contar. 

 

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