LADING

Brincando de Vida

Ver a vida por uma perspectiva de que ela é uma brincadeira pode deixar tudo mais leve. Imagine a criança, na sua grande inocência, que nada mais é do que a não criação de expectativas sobre os acontecimentos. Com algo inesperado, surge a um sorriso, uma risada. A criança não leva a vida de maneira demasiadamente séria. E por que perdemos isso ao passar dos anos, das experiências… dos traumas? Quão bom seria se tirássemos os pesos dos ombros sobre nós e vivêssemos como uma pétala, guiada pela força do vento e que dança uma valsa a cada ventania?
Por isso, te pergunto: por que estamos sempre buscando outros para tirarem conclusões sobre onde deveríamos pousar nossa pétala? Por que sofremos tanto a cada ventania e negamos essa dança?
Que tal sermos palhaços da nossa própria história e rirmos dos acontecimentos? O Heyoka nos convida a essa descoberta.
Desperte o inesperado em você
Nada melhor para incorporar uma ideia do que a entender. Vamos trocar em miúdos sobre esse arquétipo tão louvado no xamanismo nativo-americano: o Heyoka.
Para o povo Lakota, Heyoka significa “aquele que anda para trás”.
“Ué, Rodrigo, mas minha vida tem que ir para frente!”
Mas quem disse que andar para trás significa retroceder?
Um Heyoka é aquele que faz as coisas de forma totalmente oposta ao “esperado”. Por essa característica, esse xamã é também representado como um palhaço sagrado. É ele que nos mostra, ao fazer as coisas de forma inesperada e oposta ao tradicional, que somos meramente humanos e que não devemos levar tudo tão a sério. Afinal, se levamos algo muito a sério, esquecemos de um “detalhe” muito importante: nós mesmos.
Quantas vezes você já não se pegou pensando em um problema específico e acabou esquecendo de coisas básicas, como comer?
Chamar o palhaço sagrado dentro de nós é nos convidar a rir da desgraça e, só então, a olhar para trás sem medo para descobrir que talvez um outro caminho teria sido melhor.
Não por acaso, para o povo Lakota, a verdade nos é revelada com duas caras em um mesmo rosto. Um lado está triste, sofrendo. O outro rindo.
Brincando com os contrários
Se temos dentro de nós duas facetas – uma muito triste e outra muito alegre – o Heyoka vai nos lembrar que o melhor sempre é pender para o lado do riso. (Por favor, não me diga o contrário!)
Uma lenda antiga que os grupos xamânicos compartilham sobre isso ilustra bem a ideia de Heyoka: numa tribo, em uma certa noite, após alguns dias de caças não muito boas, as pessoas estavam chorando de tanta fome. Até que Heyoka apareceu e as incentivou a não comerem nunca mais, pois seria muito melhor viver sem comer, para não ter que passar pela fome. Todos começaram a rir dessa ideia “maluca” e… acabaram esquecendo da fome.
Fuja do padrão
Pensar de modo contrário é também nadar contra a corrente. No momento que somos levados a pensar por conta própria, a tomar as rédeas da nossa própria história, crenças começam a ser testadas – e isso dói, inevitavelmente. Porém, se nos atermos à dor e ao sofrimento, usaremos apenas uma de nossas facetas. Caso nos apoiemos ao oposto – ou seja, se tirarmos proveito da dor de alguma forma – veremos a situação por um outro ângulo e, assim, acharemos outras respostas e soluções.
E veja: tudo está dentro de você. Encontrar o caminho na contradição é brincar com as possibilidades da vida e a não se entregar ao chão a cada tropeço dado.
Além disso, quer coisa mais sincera e contagiante do que uma bela gargalhada?
Você pode ser um Heyoka
Como disse lá no início do texto: todos têm um Heyoka interno. Quando incorporamos isso ao nosso dia-a-dia, começamos a considerar que viemos para essa existência como um despertador não-convencional. Ou seja: sabe aquele alarme que ao invés de fazer “bi-bi-bi”, começa a tocar uma música da Anitta? Imagina o turbilhão de coisas que esse acontecimento inesperado vai causar? A mesma coisa pode acontecer quando temos esse tipo de atitude com os outros.
Ser empata é muito mais do que passar a mão na cabeça de quem está passando por um sofrimento. É elevar a energia dessa pessoa, mostrando que a vida pode ser leve, sim, apesar de toda angústia.
Para o povo xamânico, uma pessoa com o Heyoka despertado, sempre que necessário em momentos de dor, faz uma brincadeira e se transforma, ele/a mesmo/a, no objeto do riso de determinada situação para que o outro se reflita através da experiência do outro.
Você pode ouvir sua música favorita no lugar do “bi-bi-bi” e transformar seu despertar, até então sofrido, em algo minimamente agradável. Quando damos amor, leveza e compaixão a todos os nossos atos – conosco e com os outros – despertamos um poder de cura inimaginável e que se propaga rapidamente.
Afinal, não podemos querer resultados diferentes se fizermos sempre as mesmas coisas. Qual é essa sua outra faceta risonha e que não se amedronta com os opostos? E vem cá: você já riu hoje?

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