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O ser humano Versalista

 

Rompendo com as limitações do modo de produção fordista, a pessoa versalista é o principal fator de evolução da economia e da sociedade

 

Em um verdadeiro transe, o personagem de Charles Chaplin no filme “Tempos Modernos” passava os seus dias apertando parafusos e, mesmo fora do horário do expediente, enxerga parafusos em tudo o que via. O filme foi classificado como comédia, mas não consigo deixar de achar trágica a realidade de que ele retrata. O modelo de produção fordista, que reduz a capacidade humana a uma única atividade que deve ser realizada repetidamente para garantir a otimização da produtividade, se mostra cada vez mais anacrônico. Tal qual os filmes mudos em preto e branco, ele teve seu valor em um determinado período da história. Hoje, entretanto, não é o que o público deseja protagonizar. 

Atualmente o desejo das pessoas é serem vistas como múltiplas e plurais. Cada indivíduo quer ter seus diversos talentos reconhecidos e que sua versatilidade seja aproveitada, valorizada e celebrada. Chamo essa capacidade de ser muitos em um só de versalismo. Portanto, a pessoa versalista é aquela que é capaz de ser talentosa de muitas formas, em diversas áreas e, com isso, contribuir para uma sociedade mais rica. O ponto fundamental para exercer a versatilidade é jamais se deixar aprisionar por crenças limitantes ou estruturas opressivas. 

Vale notar que nos períodos de mais profunda e intensa transformação da história ocidental, a valorização das habilidades dos versalistas era proporcionalmente maior. Nesses períodos, os indivíduos ou instituições que realizavam atividades em vários setores eram a mola propulsora da inovação técnica e estética. A Renascença existiu graças a estas personalidades. Talvez o exemplo mais completo de um “homem da renascença” seja Leonardo da Vinci. Pintor, escultor, anatomista, arquiteto, inventor, físico, matemático, cientista, botânico, músico e poeta, ele não via nem aceitava limites para o conhecimento em cada uma das suas áreas de interesse. Sua busca pela excelência era o combustível da sua genialidade – ou seria o contrário? 

Vários gênios da humanidade, como Galileu Galilei e Michelangelo Buonarotti, transitavam entre várias áreas de especialidade. Isaac Newton, é outro bom exemplo: era matemático, físico, astrônomo e teólogo e que mudou o mundo com suas descobertas, leis e equações. 

Em outro momento de transição importante, a passagem da idade moderna para a contemporânea, no século 18, os iluministas eram também versados em diversas matérias. Eram filósofos e cientistas que usavam suas habilidades para ampliar a compreensão do mundo. Charles Darwin era geólogo, biólogo, botânico e naturalista, estudou medicina, artes e se formou clérigo da religião anglicana. Em paralelo teve, em sociedade com irmão, um laboratório de química. Em sua viagem no HSM Beagle provou ser, também, excelente desenhista, montanhista e arquivista. Tudo isso foi instrumental para que ele formulasse da Teoria da Evolução das Espécies. Ou seja, até habilidades que não parecem ser importantes podem fazer toda diferença

Até a Revolução Industrial, ninguém achava estranho alguém ter diversas habilidades. Afinal, qualquer fazendeiro, além de cuidar da sua plantação, era um pouco engenheiro porque construía a própria casa, celeiros, moinhos e diques, era um pouco veterinário porque cuidava dos seus animais, era um pouco músico porque tocava para alegrar as noites na sua casa, era o historiador das próprias famílias, era o mestre cervejeiro e enólogo da sua própria cerveja ou vinho. Suas esposas eram cozinheiras, professoras, costureiras, curandeiras, botânicas, biólogas e veterinárias. O fato é que o natural é ser múltiplo. Embora existam atividades em que uma pessoa se destaque mais dos as outras, o versalismo é parte da vida. 

Mas essa verdade se tornou incômoda dentro do sistema industrial. Afinal, para que a indústria fosse produtiva era preciso que os trabalhadores não só operassem máquinas como também agissem com máquinas. Quanto mais soubessem sobre o que faziam e menos compreendessem do todo, mas dependentes eles seriam do emprego e, portanto, mais fáceis de controlar. O que não entrava nessa equação era o tédio e a insatisfação de ter seus talentos ignorados. A dimensão individual era considerada ineficiente e perigosa enquanto a expressão pessoal era vista como irrelevante. Prova disso que as atividades monótonas e repetitivas se mantiveram como regra até o século 20 – vide a obra de Chaplin – e persistem no século 21, embora já não se encaixem completamente na nossa realidade. 

O cineasta Federico Fellini dizia que uma pessoa deve viver esfericamente, se desenvolver em diversas direções. Essa a base do versalismo em dimensão pessoal. Quando se desenvolve diversas habilidades, é possível ir além do óbvio e, com isso, conquistar a liberdade.  Existem vários exemplos de pessoas que se mostram hábeis em várias áreas e, com isso, ganham a possibilidade de fazer tudo o que queriam. Jane Fonda, era uma princesa de Hollywood, mas foi além de atuar e criou um método de fazer exercícios. Paul Newmann, também ator de sucesso, brilhou nas pistas de automobilismo e, além de ativista político e filantropo, em 1982, criou uma marca de produtos alimentícios como molhos e biscoitos. Em 2008, abriu uma vinícola. Ainda nos anos 1970, diretor de cinema Francis Ford Coppola, no auge da fama com o filme Poderoso Chefão, decidiu investir em vinicultura e hoje tem enorme prestígio nesse segmento também. Kobe Bryant, jogador de basquete, ganhou um oscar com um filme que escreveu e dirigiu. Gisele Bundchen, modelo, se tornou um sucesso como autora de livros. A lista é imensa e cheia de histórias inspiradoras.  

Esses exemplos mostram que o sucesso muitas vezes vem acompanhado pelo versalismo. Engana-se quem acredita que é falta de gratidão ser bem sucedido em um campo e arriscar-se em outro. A equação é outra. Pessoas bem sucedidas tendem a se livrar de crenças limitantes, passam a confiar mais em seus talentos e sonhos e, por isso, investem energia, tempo e dinheiro, em outras atividades onde também alcançam êxito. 

Está cada vez mais claro que precisamos ser exploradores das nossas próprias habilidades, sermos desbravadores dos nossos desejos. A pandemia nos obrigou a fazermos expedições internas. Depois dos oceanos e da lua, hoje a humanidade tem que explorar a si mesmo – sua alma, seus anseios e talentos.

Dessas expedições pela própria alma muita gente está emergindo disposta a fazer mudanças radicais na sua vida. Alguns focaram sua energia em mudar seu estilo de vida, criar novos hábitos. Outros resolveram ampliar seus horizontes e, com a desculpa de não poderem sair de casa, tomaram coragem para fazer coisas que sempre desejaram fazer, mas não viam conexão com a sua realidade imediata. Financistas foram aprender sobre marcenaria, donas de casa buscaram entender do mercado de ações, workaholics descobriram o prazer de plantar uma horta – enfim, os exemplos são inúmeros e muitas vezes surpreendentes. Cursos de gastronomia, confeitaria, padaria, pintura em guache, tricô, crochê, bordado, inglês, francês, alemão, japonês, mandarim e de todo tipo de atividade saíram da lista de desejos a serem realizados “um dia, quando houver tempo” para a agenda da pandemia. 

Desse mergulho nos próprios talentos e habilidades combinado com o medo da morte evidenciado pela pandemia, surgiu o impulso para dar saltos evolutivos. Muita gente resolveu adotar novos parâmetros de vida, novos objetivos e muitas pessoas decidiram, inclusive, mudar de profissão. O que pode soar como um ato kamikaze, na verdade, é uma forma de redenção. Trocar de profissão é como viver o mito da fênix, que pega fogo para renascer das próprias cinzas. Para a maioria não é uma desconstrução irresponsável e sim uma forma de construir uma nova vida a partir de outros valores como alicerce. 

Nesse processo, muitos casamentos foram reavaliados. Alguns encontraram na convivência próxima e intensa o alimento que precisavam para se fortalecer e florescer. Por outro lado, muitos casamentos foram colocados em xeque e muitos não sobreviveram ao choque de realidade provocado pela exposição constante à outra pessoa. Muitos casais perceberam que seus sistemas de valores já não eram os mesmos e que as respectivas agendas cheias disfarçavam a falta de conexão mental entre os dois. 

Entretanto, é preciso admitir que nem todo mundo embarcou na viagem interior proposta pelo coronavírus. Muita gente não se permitiu fazer grandes questionamentos pessoais. A questão é que mesmo estes foram atingidos pela onda de mudança iniciada com o isolamento social. 

De forma brutal (e até chocante para alguns) a pandemia obrigou as pessoas a desenvolverem novas habilidades. Os que só faziam seu trabalho no escritório e deixavam o preparo das refeições para especialistas – os restaurantes – tiveram que passar a cozinhar. Mimados pelos técnicos da área de informática, executivos tiveram que aprender a navegar no mundo virtual, usar aplicativos de reunião e a cuidar dos bugs apenas recorrendo a indicações virtuais. O mais desafiador para muita gente, entretanto, foi ter que reaprender o seu lugar na cadeia produtiva. Enfrentar seus preconceitos de classe, sua arrogância intelectual e perceber que, mais do que desejável, é preciso ser versalista para sobreviver na nova ordem econômica.

O interessante é que as mudanças que ocorreram tanto no aspecto pessoal quanto no profissional inexoravelmente vão se refletir no consumo. Na sociedade pós-tudo em que vivemos, as pessoas revelam quem são quando adquirem bens e serviços. Muitas das mudanças de alma e estilo de vida acabam se consolidando nos corredores dos supermercados, no extrato bancário e nas faturas do cartão de crédito. Em uma grande medida, somos o que consumimos e compramos de acordo com o que somos. 

O principal efeito desta versão pós-pandemia das pessoas é que tudo o que se sabia sobre marketing precisa ser reavaliado. Isso faz com que os profissionais de marketing precisem se reinventar. Tudo precisa ser questionado. Conceitos como público-alvo definido por dados demográficos e geográficos passam a ter um peso muito diferente do que há apenas cinco anos. Se as prioridades de vida mudaram, as prioridades de compra também mudam. Gente que antes comprava para a família, depois da separação para comprar para um só. Comprar online agora é coisa de vovó. Consumismo é visto com olhos críticos pelos mais jovens. Ou seja, junto com a mudança da sociedade, os profissionais de marketing precisam rever suas certezas e enxergar seus desafios de forma mais ampla para encontrar soluções mais adequadas tanto nos aspectos de imagem de marca quanto de vendas propriamente ditas. 

Em todos os níveis e funções, uma coisa é certa: as empresas não querem mais autômatos sem criatividade. Querem pessoas completas, que vivam e sintam em diversas direções, que sejam capazes de contribuir com a com desejo de inovação destas empresas. As corporações que se mantiveram presas ao modelo linear fordista correm o risco de se perderem no tempo, de não participarem da complexa equação da nova economia que considera tanto inovação tecnológica como diversidade social, correção ambiental para conquistar e reter clientes. As empresas, tanto quanto as pessoas, vão precisar se desenvolver esfericamente para conquistar o futuro. É hora de Fellini e não de Chaplin. 

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